ao som da pisadinha

caquética e imponente
a miséria olha nos olhos da pandemia
e ri.

ri como quem recebe um ajudante
que nunca será páreo
mas que tornará seu trono
ainda mais enraizado
nas tripas civilizatórias.

vêm-me os esclarecidos da classe média
reclamar da grande massa ignorante
aglomerada nas praças! que ultraje!
como ousa, ó, massa deseducada
sair dos ônibus lotados
sair dos empregos precarizados
e se autorizar a uma distração de sábado?

“como ousa? não tens netflix?”
pergunta-se a esclarecida classe média
herdeira direta de Robespierre
e de todos os palavrosos rebeldes
que embelezaram a burocracia

enquanto isso lá fora
ouço o som grave da pisadinha
ouço um velho contar as moedas
ouço os gritos agudos das meninas
talvez todas assintomáticas
vivendo como podem
na alegria ou na pobreza
na miséria ou na doença

até quando?

olhei pela janela
nem o povo nem a vida
aguenta mais usar máscara

sem sentido

tédio é invenção humana
falta de presença nos sentidos

se você tiver uma planta em casa
e o olfato preservado
e um pouco de boa vontade
não haverá tédio

se você tiver uma janela em casa
e olhos, mesmo que míopes,
e um acesso ao céu
verá nuvens passando

-e nuvens nunca são feias –
não haverá tédio

se você tiver um cobertor em casa
e a pele estiver sem arder
e um pouco de imaginação

– erótica ou não –
não haverá tédio

e se você ainda assim não vir graça
e se já não conseguir se entregar
a essas coisinhas tolas e fáceis
e estiver aprisionada nos prazeres pomposos
dos bares, das redes, dos aplausos

ande três ou quatro casas para trás
no jogo da memória
e lembre-se de quando era criança
e tudo ainda era descoberta
e tudo parecia gigantesco
e fique aí
até que seu corpo seja novo
e o mundo seja novo
outra vez

e para sempre